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quinta-feira, março 29, 2007

A Educação não é um ramo da Economia

A sociedade portuguesa viu instalar-se nos derradeiros anos um discurso negativo sobre os seus recursos e capacidades. É, de certo modo, o retorno cíclico ao “Velho do Restelo”.
Esse discurso descrente e desencantado tem intérpretes em múltiplos sectores da sociedade mas parece ter penetrado mais fundo no sector da educação, incluindo o ensino superior. Curiosamente, ou talvez não, os estudantes e os seus representantes associativos encontram-se entre os seus maiores cultores. A rivalizar com eles sugere-se quase só o discurso governamental, falho de convicção e amarrado a grupos de interesses que não vêem no ensino e na formação senão o negócio.
São pedras de toque da mensagem da desgraça, especialmente:
i) a suposta degradação da qualidade do ensino superior oferecido (com ênfase maior no ensino público);
ii) a perda de pertinência da formação ministrada face às solicitações do mercado de trabalho (vulgo empresas);
iii) a culpabilização dos professores e da autonomia das instituições pela proliferação de cursos que não oferecem perspectivas de saída profissional aos seus diplomados.
Colocadas num contexto geral de reflexão sobre a evolução e futuro da formação graduada e pós-graduada, estas questões têm merecido a atenção de diversas instâncias nacionais e internacionais. Para reter um desses documentos, menciono aqui o relatório da UNESCO sobre “Higher Education in the Twenty-first Century: Challenges and Tasks Viewed in the Light of the Regional Conferences” (Word Conference on Higher Education, Paris, Outubro de 1998).
Recomendando vivamente aos interessados a leitura do citado documento, de forma sumária não queria deixar de dar aqui o meu testemunho sobre as questões mencionadas.

1. Quem, como eu, acedeu ao ensino superior universitário na fase de transição do ensino elitista do início dos anos 70 para o ensino massificado do pós-25 de Abril e, posteriormente, na condição de docente, viveu a euforia da expansão do sistema universitário nos anos 80 e 90 do século XX, não pode deixar de ficar perplexo com o simplismo do discurso sobre o ensino superior em Portugal.
Se bem que não se possa esperar dos estudantes que frequentam actualmente as instituições uma “memória” dos progressos realizados, pode-se-lhes pedir a honestidade intelectual de evitarem afirmações infundadas ou não suportados pelos factos que assistem à configuração presente do sistema de ensino superior. Para falar daquilo que conheço bem, deixo aqui apenas 2 números: quando ingressei como docente no começo dos anos 80, a minha Escola/Faculdade tinha um corpo de 3 doutores; hoje tem 50, e dentro de um ano e meio deverá contar com 60. No mesmo contexto de testemunho pessoal podia reportar-me às instalações, ao equipamento informático, aos serviços de apoio, etc.
[...]

J. Cadima Ribeiro

(reprodução da 1ª parte de texto datado de 2003/12/03)

Comentário: às vezes tenho curiosidade de rever peças escritas que tenho no baú; esta é uma delas)

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